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Ei, Désirée. Será que eu... sou uma... existência morta?
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Bom dia, Désirée. Por favor, não me dê uma bronca, você sabe que não gosto, por mais que esteja de fato errada. Bom, não fui para a escola mesmo. E estou num tremendo clima para músicas lentas e tristes. Não sei por quê. Mas, para te ser sincera, não estou triste. E nem alegre. Mas quero ouvir músicas tristes. Por favor, não responda àquela pergunta que lhe fiz outrora, se me acha estranha, porque depois dessa pequena conversa, sei que dirá que sim. E continuará dizendo.
Bom, o que falávamos ontem, digo, hoje? Existência morta... Pode ser.
Sim, eu estou sendo influenciada por uma história, mas...
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Desculpe abandoná-la este imenso meio-tempo. Segui seu conselho, e fui para a escola. Agora me peguei pensando em você ao ver uma lista de comunidades. Parece bobo, mas algumas me influenciam. Não sei se são palavras originais ou copiadas, de quem quer que seja, são palavras sinceras, algumas eu sei que são. Sem intenção de fama, sem intenção de status, apenas são...
Eu, esta manhã, estava te questionando sobre uma existência morta, mas não lhe expliquei o que exatamente quis dizer. Não menciono cadáveres. Menciono pessoas esquecidas. Acho que não existe nada mais triste que uma existência esquecida, uma existência que, mesmo vivendo, sabe que não está ali. Porque simplesmente os outros ao redor não a enxergam, não a consideram. Eu preferia morrer a viver esquecida, e acabei percebendo: este é meu verdadeiro medo.
Não é à toa que eu vivo dizendo para mim: “eu quero provar minha existência”. Sou meio frágil quanto a isso. Aliás, quem não é? As pessoas tentam se provar a cada segundo. Não importa se por um instante, por um tempo em vida ou para sempre nas memórias, as pessoas têm necessidade de se provar. Realmente, alguém “morto”, por assim dizer, é alguém triste.
Eu já fui alguém morto.
E então provei da minha própria existência.
Eu me achava feliz quando era morta. Não via necessidade em laços, em festas, em amores. E então, as pessoas vieram de mansinho, me conquistando sem que eu mesma reparasse. E eu não reparei quando deixei de ser morta e recebi um pequenino sopro da vida. Eu não tinha noção de que era importante, porque nunca havia provado ser um ninguém. Eu era um ninguém. Mas era um ninguém sem experiência. Eu jamais havia sido um novo ninguém, um morto depois de viver.
E foi então que fui obrigada à ir. Eu sempre havia sido desapegada. Mas isso porque eu era morta. E agora, que estava viva, e teria de morrer?
De criança que fui, acreditei que não poderia morrer. Que tudo seria normal.
De certa forma, foi. Alguns laços continuaram. Novos laços foram criados, numa rapidez inacreditável. Que mundo maravilhoso, esse das crianças. Talvez, se me perguntassem, eu diria que gostaria mais de ser menina que mulher.
E aí, para minha surpresa, percebi que tinha importância. E aquilo foi da maior felicidade para mim. Ver aquela pequena e particular multidão, que tinham olhos brilhantes de tamanha ansiedade, os gritos ao perceber minha humilde e tímida presença. Eu era importante. Ali, soube disso. Não soube disso até aquele momento. Mas o momento tinha ido, eu tinha de voltar para meu outro mundo.
E, durante um tempo, eu continuei presente no meu antigo mundo.
Até que ele se esvaiu.
Pessoas brigavam, pessoas se afastavam, pessoas eram substituídas e sentimentos eram abandonados. Quando todos percebemos, aquele mundo era partilhado apenas na memória, e nada mais. Memórias de infância, com pessoas que seriam apagadas pelo tempo.
Eu comecei a me questionar .
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Eu comecei a pensar: até quando vai nossa existência? Quanto tempo ela dura? Onde a minha existência ainda existe? E, nesse lugar, até onde ela existirá?
Não são questões fáceis de se enfrentar. Mas eu me esqueci. Esqueci delas. Porque, novamente eu tinha um outro mundo. E eu comecei a cobiçar. Comecei a perceber que aqueles desejados têm uma existência mais profunda e duradoura. E então eu comecei a abandonar meu mundo para buscar aquele outro mundo.
Eu não sei exatamente se foi aí que eu comecei a me perder. Talvez tenha sido. Talvez o meu novo mundo estivesse apenas se esvaindo, como o anterior. Então... será que nenhum mundo dura para sempre?
Mas, ainda assim, ainda cega pela cobiça, eu não percebia que tinha o que eu queria. Mas eu ainda tinha. Eu ainda era viva.
E então, mais uma vez, me vi obrigada a mudar de mundo. E eu chorei. Não eram mundos tão distantes, eram paralelos, mas quase transversais. Mas, ainda assim, eu estava perdendo um outro mundo.
E me vi num outro mundo, desconhecido, em que eu era obrigada a formar laços com outras existências que antes eu ignorava. Mas apareciam anjos e me salvavam daquilo. Troquei de mundo 3 vezes neste ano. Mundos paralelos e transversais, que me pareciam longínquos por muitas vezes.
E eu me vi sendo obrigada a mudar. Mais uma vez. Eu não queria.
Eu, na verdade, tinha um sonho. Eu buscava um mundo num lugar. Eu cheguei tão perto de realizá-lo. Mas ele fugiu por entre meus dedos, como água. Eu podia fechar minha mão e aquela água formaria uma pequenina lagoa em minhas mãos, mas, inevitavelmente, ela escorria pelas frestas de minhas mãos.
Fui obrigada a ir a um lugar que não deseja buscar mundos. Mas um mundo me encontrou. Pessoas que outrora riam de mim, agora riam comigo. Era surpreendente e feliz ao mesmo tempo para mim. Eu, mais uma vez, estava provando um novo sopro de vida. Agora, eu tinha noção do quanto aquilo era importante, o quanto aquilo aquecia meu coração. Aquilo era felicidade; um chocolate quente e uma coberta no inverno, um casaco na chuva, uma luz no escuro, um abraço na solidão, uma outra existência na tristeza. Ali, eu entendia.
Mas a sociedade e as convenções são meio implicantes, às vezes. E dessa vez eu me vi obrigada por mim mesma a trocar de mundo. E, em meio piscar de olhos, eu não tinha abraços. Nada de abraços na escola. Nada de abraços fora da escola. Nada de abraços em casa. Eu tinha lágrimas. Eu tinha frio. E nenhum abraço.
Por algum tempo, eu tive um abraço provisório. Eu tive um abraço, o abraço mais importante de todos que aparecia em meio à minha terrível escuridão, como um sol brilhante. Era um abraço muitas vezes instável, e eu era egoísta de aceitá-lo. Mas eu precisava daquele abraço.
Mas a minha mente doentia, que agora se transformava num redemoinho confuso de histórias e sentimentos rejeitava aquele abraço. Não era de propósito, eu apenas não pensava. Porque eu não tinha outros abraços, eu descontava no único abraço que me restava. Eu ainda me arrependo de descontar naquele único abraço, porque, um dia, eu busquei aqueles braços. Mas, não para minha surpresa, eles estavam fechados.
Talvez eles estivessem ficando mais fechados ao longo do tempo, mas eu confundia aquilo com um abraço mais apertado. Sempre fui ingênua, você sabe.
E tive de recomeçar do zero. Consegui reconquistar abraços em casa. Abraços fora de casa. Abraços na esquina, abraços em outros bairros, eu participava de novos mundos. Agora, eu pertencia muitos mundos, mas nenhum deles me abraçava. E eu estive constantemente procurando abraços desde então.
Desculpe-me por estar sentimental assim hoje, eu, na verdade, não tenho nenhum motivo especial. Apenas gosto de filosofar com você.
E bom, para não te deixar a apenas imaginar uma conclusão, embora não exista uma muito bem, eu deixei minha cobiça para trás. Demorou, e muito para entender. Talvez eu me perca mais algumas vezes no meu caminho e ela volte. Mas, por enquanto, tenho consciência de mim. E dos meus abraços que eu guardo num pote de outro no fundo do coração. E dos abraços que eu espero vir. E dos abraços que eu dou de bom grado.